Hora-clínica: como calcular o preço real do seu tempo
Hora-clínica é o custo total de operar a clínica em uma hora de atendimento, somando despesa fixa, despesa variável, impostos e a margem desejada, dividido pelo número de horas produtivas do mês. Sem esse número, qualquer preço de consulta é chute. A conta cabe em uma planilha simples e leva menos de um dia para ser feita pela primeira vez.
Time Salte7 min de leitura

Passo 1: reúna as despesas fixas do mês
Pré-requisito: ter em mãos os últimos três boletos de aluguel, folha de pagamento e contas fixas. Tempo estimado: 1 hora.
Despesa fixa é todo custo que a clínica paga independente de atender um paciente ou cem. Aluguel, condomínio, salário de recepção, contador, sistema de gestão, internet, seguro e depreciação de equipamento entram nessa lista. Some tudo e chegue a um valor mensal único.
Erro comum: esquecer custos que só aparecem uma vez por ano, como IPTU, alvará de funcionamento ou renovação de vigilância sanitária. Divida o valor anual por 12 e inclua a fração mensal na despesa fixa, senão o custo real fica escondido.
Passo 2: reúna as despesas variáveis por atendimento
Pré-requisito: ter a lista de materiais e insumos usados em uma consulta padrão. Tempo estimado: 30 minutos por especialidade.
Despesa variável é o custo que só existe quando o paciente é atendido: material descartável, luva, campo, medicamento usado no procedimento, taxa de cartão de crédito e comissão de convênio quando aplicável. Multiplique o custo unitário pelo número médio de atendimentos do mês para saber o total variável.
Erro comum: tratar taxa de maquininha e imposto sobre a nota fiscal de serviço como se fossem parte do custo fixo. Eles variam com o faturamento, então entram como variável, senão a margem calculada fica distorcida.
Passo 3: defina as horas produtivas reais do mês
Pré-requisito: ter o histórico de agenda dos últimos três meses, com horas ocupadas e horas vagas. Tempo estimado: 1 hora.
Hora produtiva não é a carga horária de funcionamento da clínica, é a hora efetivamente ocupada com atendimento pago. Se a agenda funciona 8 horas por dia, 22 dias por mês, isso dá 176 horas de agenda aberta, mas se a ocupação real é de 70%, as horas produtivas caem para 123.
Esse é o ponto que mais gente erra na hora-clínica. Uma revisão sobre absenteísmo em consultas médicas agendadas mostra taxas de falta que variam bastante entre serviços, o que reforça por que não dá para calcular a hora-clínica assumindo 100% de ocupação. Um estudo sobre gestão do absenteísmo na atenção primária também documenta esse impacto direto no custo por atendimento.
Erro comum: usar a hora de agenda aberta em vez da hora ocupada. Isso faz a hora-clínica parecer mais barata do que é e a clínica acaba cobrando abaixo do custo real.
Passo 4: calcule os impostos sobre o faturamento
Pré-requisito: saber o regime tributário da clínica, CNPJ e faixa de faturamento anual. Tempo estimado: 1 hora, com apoio do contador.
O imposto entra na conta como percentual sobre o preço final, não como valor fixo. No Simples Nacional, a alíquota efetiva sobe conforme a faixa de receita bruta acumulada nos últimos 12 meses, conforme a Lei Complementar 123/2006. Serviços de saúde também podem estar sujeitos ao Imposto sobre Serviços previsto na Lei Complementar 116/2003, com alíquota definida pelo município.
| Regime | Como incide | Ponto de atenção |
|---|---|---|
| Simples Nacional | Alíquota única por faixa de receita, já inclui vários tributos | Alíquota efetiva sobe com o faturamento acumulado |
| Lucro Presumido | Tributos calculados separadamente sobre um percentual presumido de lucro | Pode compensar dependendo da margem real da clínica |
| ISS municipal | Percentual sobre o valor do serviço, definido por lei municipal | Alíquota varia de cidade para cidade |
Erro comum: calcular a hora-clínica sem imposto e só aplicar a alíquota depois, no preço final. Isso inverte a lógica e faz o preço sair abaixo do necessário para cobrir o tributo.
Passo 5: defina a margem de lucro desejada
Pré-requisito: ter a soma dos passos 1 a 4 pronta. Tempo estimado: 30 minutos.
Margem não é o que sobra por acaso, é uma decisão. O Sebrae orienta que a formação do preço de venda precisa considerar o retorno esperado sobre o investimento, não apenas cobrir custo. Uma margem de 15% a 25% sobre o custo total é um ponto de partida comum entre clínicas de pequeno porte, mas o número certo depende do capital investido e do risco do negócio.
Erro comum: definir margem como porcentagem do preço da consulta do concorrente, e não do próprio custo. Isso terceiriza a decisão de lucro para quem nem conhece a estrutura de custo da sua clínica.
Passo 6: monte a fórmula da hora-clínica
Pré-requisito: ter os quatro componentes anteriores em valores mensais. Tempo estimado: 15 minutos.
A fórmula funciona assim:
Hora-clínica = (Despesa fixa mensal + Despesa variável mensal + Impostos + Margem) ÷ Horas produtivas do mês
Exemplo simplificado: despesa fixa de R$ 18.000, despesa variável de R$ 4.000, impostos estimados de R$ 3.000, margem desejada de R$ 5.000, total de R$ 30.000. Com 123 horas produtivas no mês, a hora-clínica sai em R$ 244. Esse valor é a referência de quanto vale cada hora de atendimento, antes de multiplicar pelo tempo médio de cada tipo de consulta.
Esse cálculo é o mesmo raciocínio usado para chegar ao preço mínimo de uma consulta médica somando ponto de equilíbrio e hora-clínica, só que aqui o foco é isolar o valor da hora, não o preço final do atendimento.
Erro comum: multiplicar a hora-clínica pela duração da consulta sem considerar que consultas de retorno ou procedimentos mais longos consomem hora-clínica proporcionalmente maior, então o preço precisa refletir isso.
Passo 7: aplique a hora-clínica aos diferentes tipos de atendimento
Pré-requisito: ter a duração média de cada tipo de consulta ou procedimento da clínica. Tempo estimado: 1 hora.
Nem toda consulta dura o mesmo tempo. Uma consulta de retorno de 20 minutos consome menos hora-clínica que uma primeira consulta de 50 minutos. Multiplique o valor da hora-clínica pela fração de hora que cada tipo de atendimento ocupa para chegar ao preço mínimo específico.
Se a hora-clínica é R$ 244 e uma consulta dura 40 minutos (dois terços de hora), o custo mínimo daquele atendimento é aproximadamente R$ 163, antes de qualquer arredondamento comercial. Esse detalhamento por tipo de atendimento está no passo a passo de precificação com aluguel, impostos e lucro.
Erro comum: usar um preço único para todos os tipos de consulta. Isso faz atendimentos longos ficarem subprecificados e atendimentos curtos ficarem caros demais, distorcendo a agenda.
Passo 8: revise a hora-clínica periodicamente
Pré-requisito: ter um calendário fixo de revisão financeira. Tempo estimado: 2 horas, a cada trimestre.
A hora-clínica calculada em janeiro perde precisão se o aluguel reajusta em julho ou se a equipe cresce em setembro. Revisar a cada três ou seis meses evita que o preço fique defasado em relação ao custo real. Esse número também serve de base para calcular o repasse do profissional que atende na clínica, porque o repasse precisa considerar o custo de estrutura que a clínica está oferecendo.
Erro comum: só revisar o preço quando o caixa aperta. Nesse ponto o atraso já custou meses de margem perdida, e o ajuste vira mais brusco do que precisaria ser.
O que fazer nesta semana
Abra uma planilha e liste as despesas fixas e variáveis do mês passado. Puxe o relatório de ocupação da agenda dos últimos 90 dias para saber as horas produtivas reais. Com esses dois números e a alíquota de imposto do seu regime, você já tem 80% do cálculo da hora-clínica pronto para revisar o preço da consulta. Se quiser aprofundar a conta até o ponto de equilíbrio do mês, use a hora-clínica como um dos insumos dessa planilha maior.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre hora-clínica e preço da consulta?
A hora-clínica é o custo de uma hora de operação da clínica, incluindo despesa fixa, variável, impostos e margem. O preço da consulta é a hora-clínica multiplicada pela duração real daquele atendimento específico, então uma consulta de 30 minutos custa menos que uma de 60 minutos, mesmo com a mesma hora-clínica de base.
Com que frequência devo recalcular a hora-clínica?
O recomendável é revisar a cada três ou seis meses, ou sempre que houver mudança relevante em aluguel, folha de pagamento, faixa do Simples Nacional ou taxa de ocupação da agenda. Esperar o caixa apertar para revisar costuma significar meses de margem perdida antes do ajuste.
A ocupação da agenda muda o valor da hora-clínica?
Sim, e bastante. O custo fixo mensal é dividido pelas horas produtivas reais, não pelas horas de agenda aberta. Uma clínica com ocupação baixa divide o mesmo custo fixo por menos horas, o que aumenta o valor da hora-clínica e, consequentemente, o preço mínimo que cada consulta precisa cobrar.
O imposto entra antes ou depois do cálculo da hora-clínica?
O imposto entra dentro da soma que forma a hora-clínica, como um dos quatro componentes junto com despesa fixa, variável e margem. Calcular o preço sem imposto e aplicar a alíquota só no final inverte a lógica e faz o valor final ficar abaixo do necessário para cobrir o tributo devido.
Hora-clínica serve para qualquer especialidade?
O raciocínio da fórmula serve para qualquer especialidade, mas os números mudam conforme o custo variável e a duração média do atendimento. Uma especialidade com procedimento mais longo ou insumo mais caro terá uma hora-clínica diferente de uma especialidade com consultas rápidas e baixo custo de material.
Fontes consultadas
- Absenteísmo de pacientes em consultas médicas agendadas: revisão integrativa (scielo.br)
- Gestão do absenteísmo na Atenção Primária em cidade brasileira de médio porte (scielo.br)
- Lei Complementar 123/2006 (Simples Nacional) (planalto.gov.br)
- Lei Complementar 116/2003 (ISS) (planalto.gov.br)
- Sebrae: Como formar o preço de venda (sebrae.com.br)
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