Precificação de consulta: como calcular hora clínica, aluguel, impostos e lucro
Preço = (Custo fixo ÷ horas ocupadas) + Custo variável + Impostos + Margem de lucro desejada. Sem separar esses quatro blocos, o preço cobrado costuma cobrir despesa e deixar pouco ou nada de lucro real, mesmo com a agenda cheia.
Time Salte7 min de leitura

Esse cálculo é feito uma vez como base e revisado a cada reajuste de aluguel, insumo ou alíquota. Os passos abaixo mostram como montar a conta do zero, com exemplo em clínica de alta e de baixa ocupação, mesmo que você nunca tenha feito uma planilha de custos antes.
Passo 1: Levante o custo fixo mensal da clínica
Pré-requisito: extrato bancário e notas dos últimos três meses. Tempo estimado: 2 horas.
Some aluguel, IPTU, condomínio, internet, salário fixo da recepção, sistema de gestão, contador e material de limpeza. Esse é o custo que existe mesmo se a agenda ficar vazia no mês.
Erro comum: esquecer despesas anuais como IPTU e seguro, que aparecem uma vez por ano e distorcem a média se não forem divididas por 12.
Passo 2: Calcule o número de horas clínicas disponíveis
Pré-requisito: grade de horários de todos os profissionais que usam a estrutura. Tempo estimado: 1 hora.
Multiplique a quantidade de salas de atendimento pelas horas de funcionamento e pelos dias úteis do mês. Uma clínica com duas salas, 8 horas por dia e 22 dias úteis tem 352 horas clínicas disponíveis no mês, mesmo que a ocupação real seja menor.
Erro comum: usar a capacidade máxima teórica em vez da ocupação média histórica, o que gera um custo por hora artificialmente baixo e um preço final subestimado.
Passo 3: Divida o custo fixo pela hora clínica ocupada, não pela disponível
Pré-requisito: taxa de ocupação real da agenda nos últimos três meses. Tempo estimado: 30 minutos.
Esse passo muda o resultado inteiro conforme a ocupação da clínica, e por isso vale comparar dois cenários com o mesmo custo fixo de R$ 18.000.
Cenário de baixa ocupação (60%): das 352 horas disponíveis, 211 horas são ocupadas. O custo fixo por hora fica em R$ 85,31 (R$ 18.000 ÷ 211).
Cenário de alta ocupação (85%): das mesmas 352 horas disponíveis, 299 horas são ocupadas. O custo fixo por hora cai para R$ 60,20 (R$ 18.000 ÷ 299).
A diferença de R$ 25,11 por hora entre os dois cenários mostra por que duas clínicas com o mesmo aluguel podem precisar de preços de tabela bem diferentes. Dividir o custo fixo pela hora disponível, e não pela ocupada, é o erro que mais gera preço abaixo do custo real, sobretudo em consultório novo ou em horário de baixo movimento.
Erro comum: ignorar sazonalidade, como dezembro e janeiro, e usar a média anual completa como se fosse constante todo mês.
Passo 4: Some o custo variável de cada consulta
Pré-requisito: lista de materiais de consumo por tipo de atendimento. Tempo estimado: 1 hora.
Inclua luvas, campo descartável, material de escritório da ficha, taxa de cartão de crédito e a comissão paga ao profissional quando o modelo é repasse por percentual. Esse valor varia por especialidade e por procedimento, então vale separar por tipo de consulta se a clínica atende mais de uma especialidade.
Erro comum: tratar o custo variável como desprezível porque é pequeno por unidade, sem perceber que ele se acumula em centenas de atendimentos por mês.
Passo 5: Aplique a carga tributária do regime da clínica
Pré-requisito: enquadramento tributário confirmado com o contador (Simples Nacional, Lucro Presumido ou Lucro Real). Tempo estimado: 1 hora com o contador.
A maioria das clínicas de pequeno e médio porte opera no Simples Nacional, com a receita de serviços de saúde caindo no Anexo III ou no Anexo V, conforme a Lei Complementar 123/2006, que fixa alíquota inicial de 6% no Anexo III e de 15,5% no Anexo V sobre a receita bruta anual até a primeira faixa.
O enquadramento entre os dois anexos depende do fator R, e o cálculo é simples de fazer na prática:
- Some a folha de pagamento (salários, pró-labore e encargos) dos últimos 12 meses.
- Some a receita bruta total dos mesmos 12 meses.
- Divida a folha pela receita: fator R = folha ÷ receita.
- Se o resultado for igual ou maior que 28%, a clínica tributa pelo Anexo III, com alíquota inicial mais baixa. Se for menor que 28%, cai no Anexo V.
Uma clínica com receita de R$ 40.000 no mês e folha de R$ 12.000 tem fator R de 30% (12.000 ÷ 40.000), o que garante o Anexo III. Se a mesma clínica reduzir a folha para R$ 9.000, o fator R cai para 22,5% e ela migra para o Anexo V, com alíquota inicial mais alta. Some a isso a emissão da nota fiscal de serviço, que incide sobre cada consulta faturada.
Erro comum: usar a alíquota nominal da tabela sem calcular o fator R todo mês, o que pode levar a clínica a pagar mais imposto do que deveria ou a se enquadrar errado por até 12 meses seguidos.
Passo 6: Defina a margem de lucro e teste o preço final
Pré-requisito: os cinco passos anteriores fechados em planilha. Tempo estimado: 1 hora, mais acompanhamento de 30 dias.
Somados custo fixo por hora, custo variável, impostos e a margem desejada, chegue a um preço de tabela. Depois, teste esse preço em uma faixa de agenda antes de aplicar para toda a base: ofereça o novo valor para pacientes novos por 30 dias e compare a taxa de conversão com o preço antigo.
Quando o preço muda na virada do mês, vincular o novo valor ao agendamento evita que a recepção cobre valores diferentes por engano em horários da mesma agenda. Na Salte, o preço da consulta fica associado ao tipo de agendamento e segue direto para a emissão da NFS-e, o que reduz a chance de divergência entre o que foi combinado e o que é cobrado no caixa.
Erro comum: aumentar o preço de toda a agenda de uma vez, sem medir o impacto na taxa de ocupação, o que pode reduzir o volume de consultas mais do que o aumento de margem compensa.
Exemplo numérico comparado
| Item | Baixa ocupação (60%) | Alta ocupação (85%) |
|---|---|---|
| Custo fixo total | R$ 18.000 | R$ 18.000 |
| Horas ocupadas no mês | 211 horas | 299 horas |
| Custo fixo por hora | R$ 85,31 | R$ 60,20 |
| Custo variável por consulta | R$ 12,00 | R$ 12,00 |
| Imposto estimado (Simples, Anexo III) | 6% sobre receita | 6% sobre receita |
| Preço mínimo para cobrir custo | aprox. R$ 105 | aprox. R$ 78 |
| Preço com margem de 25% | aprox. R$ 140 | aprox. R$ 104 |
Esses números são ilustrativos e cada clínica precisa recalcular com seus próprios custos, sua ocupação real e seu enquadramento tributário confirmado com o contador.
Quando revisar a precificação
A revisão não espera o fim do ano. Alguns gatilhos exigem recálculo imediato, e o restante segue calendário fixo.
- Aluguel reajustado acima de 5% no contrato de locação.
- Custo de insumos e materiais de consumo subindo mais de 3% em relação ao último levantamento.
- Mudança de alíquota ou de anexo do Simples Nacional, inclusive por variação do fator R entre um período de apuração e outro.
- Contratação de novo profissional que altera a folha de pagamento e, por consequência, o fator R.
- Mesmo sem nenhum desses gatilhos, revisar a planilha completa a cada seis meses é o intervalo mínimo recomendado, porque custo fixo, ocupação e carga tributária mudam de forma incremental e passam despercebidos mês a mês.
O Brasil tinha mais de 400 mil estabelecimentos de saúde cadastrados no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde, o que ajuda a entender por que pequenas diferenças de precificação e ocupação decidem a saúde financeira de uma clínica em um mercado com tanta oferta.
O que fazer esta semana
Abra uma planilha simples com os seis passos acima usando os números reais da sua clínica do mês anterior, incluindo a taxa de ocupação real e não a capacidade teórica. Leve o resultado para o contador antes de qualquer reajuste, porque a alíquota efetiva do Simples Nacional muda conforme a folha de pagamento e o fator R do período, e marque no calendário a próxima revisão para dentro de seis meses.
Perguntas frequentes
Qual a fórmula básica para calcular o preço de uma consulta?
Preço = (custo fixo dividido pelas horas ocupadas) + custo variável por consulta + impostos do regime tributário + margem de lucro desejada. Os quatro blocos precisam ser calculados separados antes de somar, porque misturar custo fixo com variável ou ignorar o imposto é o erro mais comum ao montar a tabela de preços.
Como saber se a clínica deve usar horas disponíveis ou horas ocupadas no cálculo?
Use sempre a hora realmente ocupada, com base na taxa de ocupação média dos últimos três meses, e não a capacidade máxima teórica da agenda. Dividir o custo fixo pela hora disponível gera um custo por hora artificialmente baixo, o que leva a subprecificar a consulta, principalmente em consultório novo ou com agenda ainda em formação.
O que é o fator R do Simples Nacional e como calcular?
O fator R é a divisão entre a folha de pagamento (salários, pró-labore e encargos) dos últimos 12 meses e a receita bruta do mesmo período. Se o resultado for igual ou maior que 28%, a clínica tributa pelo Anexo III da Lei Complementar 123/2006, com alíquota inicial mais baixa; se for menor, cai no Anexo V, com alíquota inicial mais alta.
Com que frequência a clínica deve revisar o preço da consulta?
No mínimo a cada seis meses, mesmo sem nenhum evento específico, porque custo fixo, ocupação e carga tributária mudam de forma gradual. Além disso, reajuste de aluguel acima de 5%, alta de insumos acima de 3% ou mudança no enquadramento tributário são gatilhos que exigem recálculo imediato, sem esperar o próximo ciclo semestral.
Posso usar o mesmo preço de tabela para todos os profissionais da clínica?
Não é recomendado quando os profissionais têm custo variável ou modelo de repasse diferentes. Uma especialidade com mais material de consumo ou comissão maior tem custo variável distinto, e o cálculo de [repasse por percentual](/repasse-medico-como-calcular) precisa entrar na conta antes de definir um preço único para toda a agenda.
Fontes consultadas
- Lei Complementar 123/2006 (Simples Nacional) (planalto.gov.br)
- CNES: consulta de estabelecimentos de saúde (cnes.datasus.gov.br)
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