Quanto cobrar por consulta médica: fórmula com ponto de equilíbrio e hora clínica
Quanto cobrar por consulta médica se calcula somando o custo fixo por hora clínica ao custo variável de cada atendimento, e depois aplicando a margem desejada sobre esse total. Não existe valor de mercado que substitua essa conta: o preço mínimo viável nasce dos custos reais da clínica, não da tabela do concorrente.
Time Salte12 min de leitura

O que é hora clínica e por que ela define o preço
Hora clínica é o tempo de atendimento disponível para gerar receita, descontadas as horas administrativas, de espera entre pacientes e de ociosidade. Ela é a unidade que transforma custo fixo mensal em custo por consulta.
Se a clínica funciona 8 horas por dia, 22 dias por mês, isso dá 176 horas de expediente. Mas parte desse tempo vai para prontuário, intervalo e reunião, não para atendimento direto. O cálculo da hora clínica real, e não da hora de expediente, é o que diferencia uma precificação sólida de uma estimativa no chute. Esse tema é detalhado com exemplos de alta e baixa ocupação em precificação de consulta: como calcular hora clínica, aluguel, impostos e lucro.
Como calcular o custo fixo mensal da clínica
O custo fixo mensal é a soma de todas as despesas que existem independentemente do número de consultas realizadas. Ele inclui aluguel, salário da recepção, sistema de gestão, contador, internet, IPTU e depreciação de equipamento.
Um consultório médio em capital costuma somar entre 15 mil e 30 mil reais de custo fixo mensal, variando com metragem e equipe, segundo levantamento a partir de planilhas de custo publicadas pelo Sebrae, em seu guia de precificação de serviços. O valor do aluguel comercial, sozinho, varia de forma expressiva entre capitais e regiões: o Índice Nacional de Custos da Construção do IBGE mostra como o custo de metro quadrado difere por unidade da federação, o que ajuda a explicar por que não existe custo fixo padrão nacional para consultório. A clínica precisa levantar o próprio número, linha por linha, porque aluguel e folha variam muito por cidade e porte.
Como calcular o custo variável por consulta
Custo variável é o que muda conforme o volume de atendimento: material de consumo, taxa de cartão, comissão de convênio, insumo descartável e eventual repasse a terceiros na mesma consulta.
Em consulta clínica simples, sem procedimento, o custo variável costuma ser baixo, entre 5 e 15 reais por atendimento, cobrindo material básico e taxa de recebimento. Já em consultas com pequenos procedimentos associados, esse valor sobe conforme o insumo usado. A separação entre fixo e variável evita subprecificar quando o volume de pacientes cai: custo fixo não desaparece com a agenda vazia.
Qual é a fórmula de precificação da consulta
A fórmula parte de três blocos: custo fixo por hora, custo variável por consulta e margem de lucro desejada.
Custo fixo por hora = Custo fixo mensal ÷ Horas clínicas disponíveis no mês
Custo por consulta = (Custo fixo por hora × Duração da consulta em horas) + Custo variável
Preço mínimo = Custo por consulta ÷ (1 - Margem de lucro desejada)
A margem de lucro desejada não é opcional na conta. Sem ela, o preço cobre custo mas não remunera o risco do negócio nem permite reinvestimento. Uma margem de 20% a 30% sobre o custo total é referência comum em serviços de saúde de pequeno porte segundo o Sebrae, mas cada clínica define a própria conforme o mercado local e o posicionamento.
Exemplo numérico completo de precificação
Considere uma clínica com custo fixo mensal de 20.000 reais e 140 horas clínicas disponíveis no mês, depois de descontar tempo administrativo e intervalo.
Custo fixo por hora: 20.000 ÷ 140 = 142,85 reais por hora.
Consulta com duração de 30 minutos (0,5 hora): custo fixo alocado é 142,85 × 0,5 = 71,42 reais.
Custo variável estimado: 10 reais (material e taxa de recebimento).
Custo total por consulta: 71,42 + 10 = 81,42 reais.
Aplicando margem de 25%: preço mínimo = 81,42 ÷ (1 - 0,25) = 108,56 reais.
Esse é o piso. Abaixo dele a consulta opera no zero a zero ou no prejuízo, mesmo que pareça um preço competitivo na região.
Como calcular o ponto de equilíbrio em número de consultas
O ponto de equilíbrio é o número de consultas por mês necessário para que a receita cubra exatamente o custo fixo mais o custo variável total, sem lucro nem prejuízo.
Ponto de equilíbrio (em consultas) = Custo fixo mensal ÷ (Preço da consulta - Custo variável por consulta)
No exemplo anterior, com preço de 108,56 reais e custo variável de 10 reais, a margem de contribuição por consulta é 98,56 reais. O ponto de equilíbrio é 20.000 ÷ 98,56, ou seja, aproximadamente 203 consultas por mês, o que dá em torno de 9 a 10 consultas por dia útil, considerando 22 dias úteis no mês.
Se a clínica realiza menos que isso, opera no vermelho. Se realiza mais, cada consulta adicional além do ponto de equilíbrio contribui quase integralmente para o lucro, já que o custo fixo já foi coberto.
Como a taxa de ocupação da agenda muda o cálculo
A taxa de ocupação é a proporção de horas clínicas efetivamente preenchidas com consulta em relação ao total disponível. Quando cai, o custo fixo por hora efetivamente atendida sobe, porque o mesmo custo fixo se divide por menos consultas reais.
O ponto de partida é sempre o mesmo: horas clínicas disponíveis no mês dividido pela duração de cada consulta. Com 140 horas clínicas e consulta de 30 minutos (0,5 hora), a agenda comporta até 140 ÷ 0,5 = 280 vagas possíveis no mês. Essa é a base de 100% de ocupação. A partir daí, a taxa de ocupação real define quantas dessas vagas de fato viram atendimento.
| Taxa de ocupação | Cálculo | Consultas efetivas/mês | Custo fixo por consulta | Preço mínimo com margem de 25% |
|---|---|---|---|---|
| 90% | 280 × 0,90 | 252 | 79,36 reais | 105,80 reais |
| 70% | 280 × 0,70 | 196 | 102,04 reais | 136,05 reais |
| 50% | 280 × 0,50 | 140 | 142,85 reais | 190,46 reais |
Essa tabela usa o mesmo custo fixo de 20.000 reais e mesmo custo variável de 10 reais, distribuídos sobre as 280 vagas possíveis no mês. O ponto central: falta na agenda não é só receita perdida naquele horário, é custo fixo que precisa ser redistribuído sobre menos consultas, empurrando o preço mínimo para cima em toda a base de pacientes. É por isso que reduzir falta e otimizar ocupação impacta o preço praticado tanto quanto reduzir despesa. Uma confirmação automática pelo WhatsApp antes do horário, como a que a Salte envia na véspera com resposta do paciente liberando ou mantendo a vaga, ajuda a manter a taxa de ocupação mais previsível sem depender da recepção ligar um a um.
Precificação por especialidade
A fórmula é a mesma em qualquer especialidade, mas o custo fixo por hora e a duração da consulta mudam o resultado final. Veja quatro exemplos com números diferentes, todos partindo de 140 horas clínicas disponíveis no mês.
| Especialidade | Custo fixo mensal | Custo fixo por hora | Duração da consulta | Custo variável | Preço mínimo (margem 25%) |
|---|---|---|---|---|---|
| Dermatologia (com aparelho) | 28.000 reais | 200,00 reais | 20 min (0,33h) | 25 reais (descartáveis, luva) | 121,66 reais |
| Psicologia | 12.000 reais | 85,71 reais | 50 min (0,83h) | 5 reais (material mínimo) | 98,80 reais |
| Fisioterapia | 16.000 reais | 114,28 reais | 45 min (0,75h) | 15 reais (faixa, gel, TENS) | 134,42 reais |
| Odontologia (avaliação) | 22.000 reais | 157,14 reais | 30 min (0,5h) | 18 reais (luva, sugador, EPI) | 128,76 reais |
Dermatologia costuma ter custo fixo mais alto por conta de equipamento com registro na Anvisa e manutenção periódica, mas a consulta é mais curta, o que reduz a fração de custo fixo alocada. Psicologia tem custo fixo mensal menor, sem necessidade de sala de procedimento, mas a sessão dura quase o dobro do tempo de uma consulta clínica, o que pesa na conta mesmo com custo variável quase zero. Fisioterapia soma equipamento e insumo de uso contínuo, além de sessão mais longa. Na odontologia, o custo variável por atendimento tende a subir bastante quando entra procedimento, e a lógica de publicidade de preço segue regra própria: a Resolução CFO 196/2019 veda divulgar valor, desconto ou parcelamento como forma de captação, então o cálculo interno de preço mínimo continua necessário, mas não pode aparecer como oferta ou promoção em peça de publicidade.
Cenários de clínica maior com dois ou três profissionais
Quando a clínica tem mais de um profissional atendendo na mesma estrutura, o custo fixo se divide entre mais horas clínicas, o que tende a reduzir o preço mínimo por consulta, desde que a ocupação de cada agenda se mantenha alta.
Imagine uma clínica com custo fixo mensal de 35.000 reais (aluguel maior, duas recepcionistas, mais salas) e três profissionais, cada um com 140 horas clínicas por mês, totalizando 420 horas clínicas disponíveis. Custo fixo por hora: 35.000 ÷ 420 = 83,33 reais, bem abaixo dos 142,85 reais do consultório individual do exemplo anterior. Para uma consulta de 30 minutos, o custo fixo alocado cai para 41,66 reais, e o preço mínimo com a mesma margem de 25% e custo variável de 10 reais fica em 68,88 reais.
Esse ganho de escala só existe se as três agendas rodarem com ocupação parecida. Se um dos profissionais atende com ocupação de 40% enquanto os outros dois estão em 90%, o custo fixo daquela sala e daquele tempo ocioso segue existindo, e a diluição por cabeça deixa de valer na prática. Clínica maior também costuma ter estrutura de repasse mais formal entre sócios ou profissionais associados, o que é detalhado em repasse para médico: como calcular, descontos legais e modelo de contrato.
Como usar convênio e particular na mesma fórmula
Quando parte da agenda é convênio e parte é particular, o cálculo de ponto de equilíbrio precisa considerar a receita média ponderada, não o preço isolado de cada categoria.
A tabela de convênio costuma ser fixada pela operadora, muitas vezes abaixo do preço mínimo calculado para consulta particular. Isso não significa que atender convênio é sempre prejuízo, mas exige contar quantas consultas de convênio a clínica precisa para cobrir a diferença, e quanto do custo fixo é alocado a cada canal. Um erro comum é usar o preço particular no cálculo de ponto de equilíbrio quando metade da agenda é conveniada a valor menor, o que resulta em meta de volume subestimada.
A glosa também entra na conta: consulta faturada por TISS e glosada pela operadora tem custo variável (tempo de reenvio, retrabalho administrativo) sem receita correspondente, o que exige revisar periodicamente a taxa de glosa dentro do custo variável real por atendimento conveniado.
Erros comuns em precificação
Quatro armadilhas aparecem com frequência em clínica pequena e média:
- Copiar o preço do concorrente sem calcular o próprio custo. O preço da clínica ao lado reflete a estrutura de custo dela, não a sua. Duas clínicas na mesma rua podem ter aluguel, folha e ocupação completamente diferentes.
- Não revisar o preço quando o aluguel ou insumo sobe. O reajuste de aluguel é previsível, geralmente anual, mas muitas clínicas mantêm a tabela de preço congelada por anos, absorvendo a alta no próprio bolso sem perceber.
- Alocar custo fixo igual entre particular e convênio sem ajustar pela diferença de preço. Se o convênio paga metade do valor do particular, ele precisa de volume maior para cobrir a mesma fração de custo fixo, e ignorar isso distorce a meta de consultas por canal.
- Ignorar a taxa de ocupação real na hora de fechar o preço. Uma clínica que calcula o preço mínimo com base em 90% de ocupação, mas opera historicamente com 60%, está subprecificando sem saber, porque o custo fixo real por consulta é maior do que o assumido no cálculo.
Quando revisar o preço da consulta
O preço calculado hoje perde validade quando qualquer variável da fórmula muda: reajuste de aluguel, contratação de nova pessoa na recepção, aumento de insumo ou mudança na alíquota tributária no Simples Nacional.
Além da revisão formal a cada seis meses, ou sempre que o custo fixo variar mais de 10%, vale acompanhar um conjunto de variáveis todo mês, mesmo sem refazer a fórmula inteira:
- Valor do aluguel e de eventuais reajustes contratuais previstos.
- Folha de pagamento da equipe administrativa, incluindo encargos.
- Preço de insumo recorrente (material descartável, medicamento de uso em consultório).
- Taxa média de cartão e prazo de repasse da maquininha.
- Taxa de ocupação real da agenda no mês anterior, comparada à taxa usada no cálculo do preço vigente.
- Taxa de glosa em consultas de convênio faturadas por TISS.
- Alíquota efetiva de imposto no regime tributário da clínica (Simples Nacional, lucro presumido ou lucro real).
Um dado de contexto útil aqui: segundo pesquisa de sobrevivência de pequenos negócios do Sebrae, negócios de serviço que não revisam preço e estrutura de custo com regularidade têm mais dificuldade de manter margem estável nos primeiros anos de operação, um padrão que se repete em clínica de saúde de pequeno porte. Clínicas que reajustam preço só uma vez por ano, sem revisar a estrutura de custo, costumam descobrir a defasagem quando o caixa aperta, não antes.
Checklist de precificação
Use esta sequência para sair do zero até ter um preço mínimo defensável, em uma tarde de trabalho:
- Liste todo o custo fixo mensal em uma planilha simples, uma linha por despesa: aluguel, folha, sistema de gestão, contador, internet, IPTU, depreciação de equipamento.
- Some o total e confirme com o extrato bancário dos últimos três meses, não com estimativa de memória.
- Calcule as horas clínicas reais disponíveis no mês, descontando tempo administrativo, intervalo e reunião da agenda de expediente.
- Divida o custo fixo mensal pelas horas clínicas para achar o custo fixo por hora.
- Levante o custo variável médio por consulta, olhando material, taxa de cartão e comissão de convênio dos últimos meses.
- Aplique a fórmula completa deste texto para achar o preço mínimo e o ponto de equilíbrio em número de consultas.
- Registre o cálculo em uma planilha que possa ser reaberta todo mês, com as mesmas linhas, para comparar a evolução do custo fixo por hora ao longo do tempo em vez de refazer a conta do zero a cada revisão.
Próximo passo
Levante o custo fixo mensal real da clínica, linha por linha, sem estimativa. Calcule as horas clínicas efetivamente disponíveis no mês, descontando tempo administrativo. Aplique a fórmula deste texto para achar o preço mínimo por consulta e o número de consultas do ponto de equilíbrio. Depois, compare com a agenda ocupada nos últimos três meses: se a média de consultas reais está abaixo do ponto de equilíbrio calculado, o problema não é preço, é ocupação.
Perguntas frequentes
Quanto custa em média manter um consultório médico por mês?
O custo fixo mensal de um consultório médio em capital costuma variar entre 15 mil e 30 mil reais, segundo levantamento do Sebrae, incluindo aluguel, folha administrativa, sistema de gestão, contador e depreciação de equipamento. O valor exato depende de metragem, cidade e tamanho da equipe, por isso a clínica precisa levantar o próprio número em vez de usar essa faixa como referência fixa.
Qual margem de lucro é razoável cobrar sobre o custo da consulta?
Uma margem de 20% a 30% sobre o custo total é referência comum em serviços de saúde de pequeno porte, segundo o Sebrae. Essa margem precisa cobrir risco do negócio e permitir reinvestimento, não é apenas lucro livre; cada clínica ajusta o percentual conforme posicionamento e mercado local.
Preço de consulta de convênio pode ser menor que o custo calculado?
Pode, desde que a clínica compense com volume maior de atendimentos daquele canal ou com receita de consultas particulares no mesmo período. O problema aparece quando a clínica não calcula separadamente o ponto de equilíbrio por canal e assume, por engano, que o preço médio cobre o custo fixo alocado a cada tipo de atendimento.
Como o CFM regula a divulgação de preço de consulta médica?
A Resolução CFM 2.336/2023 permite divulgar preço de consulta, desde que a peça de publicidade traga informação completa e não configure sensacionalismo, promoção enganosa ou concorrência desleal. Peça de pessoa jurídica precisa apresentar nome do estabelecimento, CRM e o nome e CRM do diretor técnico.
Dentista pode oferecer desconto ou parcelamento para atrair paciente?
Não. A Resolução CFO 196/2019 proíbe divulgar preço, desconto, parcelamento, promoção ou brinde como forma de captação de paciente. O cálculo interno de preço mínimo segue necessário para a gestão financeira da clínica, mas não pode ser usado como oferta em peça de publicidade odontológica.
Com que frequência devo revisar o preço da consulta?
A prática recomendada é revisar o cálculo completo a cada seis meses, ou sempre que o custo fixo variar mais de 10%, além de acompanhar mensalmente variáveis como aluguel, insumo, taxa de ocupação e taxa de glosa, que sinalizam quando a revisão formal não pode esperar o prazo semestral.
Fontes consultadas
- Sebrae: Como formar o preço de venda (sebrae.com.br)
- Resolução CFM 2.336/2023 (sistemas.cfm.org.br)
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